Portalegre dos pequenitos

Era já fim da tarde, e a Inês brincava. O Jardim da Corredoura, imenso na sua longitude, era dela. Dela, e dos demais que por lá passavam. Alguns gatos-pingados. Vinham respirar o ar de natureza da cidade, outros gastavam o tempo até que as mães os chamassem para jantar e pôr a mesa, e depois aqueles que observavam tudo isto com um olhar enternecedor e nostálgico.

Com apenas oito anos, Inês diz que “há muitas crianças em Portalegre” e que os parques infantis são “muito giros”. Mas o que é ser criança em Portalegre? Boquiaberto ficaria qualquer um, ao receber tão calorosa e convicta resposta: “são crianças mais felizes e mais livres. Brincam mais e têm mais ligação à natureza, ao campo e aos animais”.

Os baloiços da Inês não agradam de todo ao João. Tem dez anos e prefere brincar na escola. É lá que tem os seus amigos.

Não estando para grandes conversas, e bastante atarefado, o João guardava delicadamente os seus patins em linha na mochila. E a cidade tem bons espaços para andar de patins e skate? Na sua descontração, em misto de timidez, responde com o familiar “mais ou menos”, apontando para o largo da Câmara Municipal, onde tinha acabado de dar uso aos patins.

“Quanto aos parques, Portalegre não tem sítio para as crianças ou jovens fazerem desportos radicais. O único sítio bom para se andar de patins ou skate é em frente à Câmara Municipal. Não há nada, nada, nada”, conta Sara Gonçalves, a responsável pelos amiguinhos que brincavam no jardim, depois da escola.

Antiga aluna da Escola Superior de Educação, Sara vive em Portalegre há cerca de dez anos e entende não haver as condições necessárias para criar uma criança nas ruas de Portalegre. Os jardins são poucos e os que existem são o Tarro e a Corredoura. Ambos têm parques infantis, mas tudo isto é tão pouco comparado ao que uma criança ambiciona para ser feliz. Portalegre está em falta para com as suas crianças.

 

O lago dos barcos a remos

 

Tinha patos e o homem transportava-os de barco, lago adentro. Eram crianças felizes na antiga Corredoura. Há quase setenta primaveras atrás.

A Dona Marta da Fonseca – como é conhecida – tem uma amizade de longa data com a Corredoura. Viveu ali, cresceu e brincou muito. Foi feliz. Perdeu uns belos tostões para o homenzinho do barco, mas foram bem empregues nos passeios das águas de tempos áureos.

Dedicada ao ensino, a Dona Marta sempre disse que as crianças “precisam ter liberdade para poderem fazer aquilo que forem capazes” e sempre quis “ensinar aquilo que eu via que eles precisavam saber”, revelava com um brilhozinho nos seus olhos azuis-claros e profundos.

As brincadeiras eram ali, no Jardim da Corredoura, que “não era nada disto”, estendendo os braços deixando a contemplar o retrato.

“Juntava-se aqui toda a gente e não havia discriminação entre classes sociais, e era um aglomerado”. Havia convívio entre as gentes do tanque das lavadeiras, com o homem do barco e com quem mais lá fosse passar o tempo, levar as crianças a passear ou lavar a roupa da trouxa.

A infância em Portalegre desses tempos era muito mais ligada à natureza, havia ligação de proximidade, respeito e tradição. Atualmente, a Dona Marta entristece-se porque já não há nada disso. “As pessoas agora vivem para algo que nem elas próprias sabem”.

Tal como a Inês, o João e a Sandra, a Dona Marta considera que as crianças desta nova Portalegre são felizes. “Mas não é a mesma felicidade, não é a mesma essência que eu tinha, pois enquanto criança eu sonhava com aquilo que queria e, dentro do possível, punha em prática”.

Nesta cidade do Norte Alentejano vive-se o habitual infanticídio que sangra no país envelhecido. Mas a genuinidade e o sorriso de uma criança conseguirá abrilhantar e colocar de pé esta sociedade revestida de ex-crianças, e já dizia a Dona Marta: “Tu não queres destruir o passado, mas queres que o presente tenha mais alguma coisa para dar a quem cá está”.

Que venham as crianças.